O artista mineiro Paulo Nazareth fez de sua caminhada até os Estados Unidos uma obra de arte

O instigante Paulo Nazareth, que passou parte da sua vida no Palmital, concedeu uma entrevista exclusiva ao caderno de Cultura do jornal Hoje em Dia.
De: Hoje em Dia Cultura

Diz a lenda que ele foi a pé de Belo Horizonte a Nova York. Outra fábula
conta que ele foi criador de porcos. Tem ainda aquela estória que lavou
os pés no rio Hudson. Ou aquela outra que vendeu bananas – a $10 cada –
em plena Art Basel em Miami.

Mas nada em Paulo Nazareth parece ser conto da carochinha. Vencedor do
Prêmio Masp Mercedes-Benz de Artes Visuais como Talento Emergente, em
maio deste ano, o instigante Nazareth tem muitas verdades para dizer. O
The New York Times já o ouviu, assim como várias outras revistas
especializadas em arte contemporânea. Saído da Escola de Belas Artes da
UFMG em 2003 para surpreender gregos e troianos do mundo todo, o artista
promete dar sua vida para a arte. E a arte, generosa, deve retribuir
com mais vida criativa para Paulo Nazareth, 35 anos. Leia, a seguir, uma
entrevista exclusiva concedida por ele ao caderno de Cultura deste Hoje
em Dia.

Me fale um pouco sobre a sua infância e adolescência, quando
começou a trabalhar para ajudar em casa, sua família, seus pais e a
memória de onde veio.

Tem muitos casos, vou contar uma versão… É bom já ir dizendo que
sou bem nascido, nasci no Morro do Carapina em Governador Valadares… alí
moramos num terreiro, num cortiço, uma vila – era, na verdade, uns
barracos de aluguel que funcionaram como terreiro de candomblé. Creio
que alí, além de conviver com os vizinhos de morro convivíamos com os
orixás. Entre os oito irmãos nasci com os pés comburcados (tortos), isso
me fazia bom de bola – controlava a pelota ali com os pés comburcados,
travada em meus pés, ninguém a tirava de meu controle… Isso na
meninice… Meus irmãos, na tentativa de corrigir a natureza, metiam em
meus pés aquela conga azul marinho (meio tênis/meio sapatilha e bastante
popular nos anos 80) que se arrebentava com o meu andar…. A “correción”
permanente se deu por duas ou três cirurgias médicas além das botas
ortopédicas de couro e madeira com as quais eu corria – pela bola ou sem
ela – pelos becos e ruelas do morro e o campo de terra avermelhada e
saibro do Planalto, bairro periférico, onde passamos a viver. Assim, com
a bota de couro e madeira os pés foram se desfazendo do gancho e
desacostumando da esfera. O caminhar insistente se modificando se fez
continuo… sempre caminhei, seja engatinhando, escorando, era e é como é,
caminhava para a escola, para a casa de meus avós às margens da BR
Rio-Bahia, caminhava por puro gosto. As mãos, como as de outros meninos
na falta de brinquedos da indústria, criavam seus próprios brinquedos – o
que a televisão oferecia e os pais não compravam, o imaginar
confeccionava com tubos de pasta de dente, remédios, chinelos velhos
encontrados nas ruas, madeira, frutos verdes e secos… Outros brinquedos
eram presentes encontrados por minha mãe enquanto ela varria as ruas da
cidade. Bonecos pernetas e manetas recebiam próteses de madeira,
plástico e alumínio de tubos e embalagens desses anos. Carrinhos de
plástico recebiam estepes de borracha de sandálias velhas… e a
“imaginación” tecia estórias com o ouvir de viagens de parentes e amigos
dos mais velhos que deixavam ou voltavam à cidade.

Nessa época, quando menino ainda, como era sua relação com a imagem das coisas, tem alguma história que ilustre isso?

Penso que já disse um pouco sobre essa minha “relación” com a
imagen quando menino. Mais detalhadamente, não tivemos televisão nos
primeiros anos de minha vida, não havia isso no morro do Carapina, ouvia
rádio dos outros … imaginava as palabras, eu vivia aquele mundo do
imaginar escutando causos, casos dos outros e de “assombracion” perto do
fogo – brincando com frutas de quintal: manga verde, goiaba verde,
coquinho, castanha seca, banana-macaca, a paisagem vista do alto do
morro, o paredão do Ibituruna, os morros altos e baixos, revistinhas em
quadrinho, imagens das revistas de rock que ali chegavam… “Pedazos” de
filme/celuloide/películas que encontrava perto do cinema de rua que
ainda existia em Governador Valadares nos anos oitenta. Eu achava esses
pedaços de filme na rua, ali em frente ou próximo ao cinema e levava
para casa. Quando apareceu a primeira TV em nossa casa, essa era uma
velha preto e branca de válvula que tinha que esquentar, às vezes
chuviscava, tínhamos que dar pancadas para que funcionasse – às vezes
por bombril (ou palha de aço) na antena… sempre uma luta para ver a
imagem preto e branco se formar na tela. Um amigo no alto do morro tinha
uma a cores – às vezes subíamos o morro aos galopes para ver a cor das
imagens e voltávamos mais rápido a informar aos que ficaram a cor das
imagens que nos chegavam em branco e negro.

Nas matérias que li geralmente dizem que você foi cuidador de
porcos(!), varredor de rua, agente de saúde, etc e depois entrou para a
Belas Artes – UFMG. Como se deu realmente sua formação? Você estudou no
Palmital, qual grupo, qual colégio? Entrou de primeira para a UFMG ou
foi um outro trajeto?

Sim, cuidar de porcos foi meu primeiro trabalho remunerado,
acredito que seja parte de minha formação…. No tempo de menino em
Governador Valadares juntava lavagem para porcos, porcos dos outros,
porcos domésticos, caseiros, porco de cria, piau, isso não era trabalho…
era tarefa – era juntar lavagem … era viver, aprender da vida. Varrer
rua, fazer pão, vender na rua, isso é experiência e “formación” humana e
profissional. Estudei sempre na escola pública. Em Governador Valadares
estudei na Escola Estadual Nelson de Sena até a quinta série quando
parei para sair da cidade. Depois voltei a estudar na Escola Estadual
Pedro Aleixo, em Belo Horizonte, quando morei na Favela da
Serra/Aglomerado do Cafezal na Serra Capivari. Ali estudei todo o ensino
médio mesmo depois de me mudar pro Conjunto Habitacional Palmital em
Santa Luzia (cadeirão do inferno, chamavam assim o lugar). Eu gostava
disso porque haviam dois mundos, o da favela do Cafezal e adjacências
(que chamam agora Aglomerado da Serra) e o Palmital. Bonitos lugares,
isso de viver o lugar também nos constrói, os jornais mantinham uma
literatura de morte e outros crimes sobre o lugar onde eu vivia e as
mortes que eu não vivia. Faltava água e transporte público e isso não se
fazia notícia…. Fui aprendiz de Mestre Orlando, escultor, artista
baiano radicado em Belo Horizonte desde os anos 70. Com o Mestre aprendi
a entalhar madeira e pedra sabão, eu queria produzir carrancas para
afugentar fantasmas, maus espíritos e demônios… Ainda estou por
terminar minha carranca. Fiz teatro com meus irmãos na igreja católica,
aprendi que meus bonecos eram títeres, tive aulas de teatro no Arena da
Cultura, frequentei a Lagoa do Nado, os saraus de poesia, o Centro
Cultural São Bernardo, me fiz titeriteiro, entrei para a ATEBEMG,
frequentei o CEC (cineclube de Belo Horizonte), as bibliotecas que havia
na cidade, fiz aulas de dança, capoeira, entrei para o Grupo de
Capoeira Angola de Minas, tentei entrar para o TU (Teatro Universitário)
e a Escola de Belas Artes da UFMG. Fui reprovado no teste de aptidão,
tentei entrar para todas as polícias existentes, desde a militar, civil e
exército… fui reprovado por indisciplina, atraso e falta de aptidão. No
segundo ano de tentativa para a escola de Arte em 1998 fui aprovado.

Como foi a Miami Art Basel?

Me pediram um trabalho para uma feira de arte, eu nem conhecia essa
tal feira de Miami Art Basel, nem sabia de sua importância, essas
coisas, nunca dei importância e essas feiras, ali quando me convidaram
para uma feira nos Estados Unidos da América, pensei: nada melhor do que
bananas! Creio que esse trabalho “Notícias da América” trata das
relações entre América Latina, Estados Unidos da América e o Mundo
Moderno/Contemporâneo – esse trabalho é feito de desejos, vontades,
projetos e planos. O projeto prevê uma viagem numa Kombi carregada de
bananas verdes que amadurecem/amarelam no trajeto de Guatemala/América
Central a Miami nos EUA. Percorrendo o caminho feito pelos imigrantes
centro-americanos até os Estados Unidos. Eles gostaram e um colecionador
iraquiano comprou o trabalho. É isso!

Qual foi o momento que você viu que poderia ser sua própria
obra, fazer parte dela fisicamente, interagir com ela, te colocar a
venda – até mesmo questionando a venda de tudo nesse mundo e o poder
nefasto e indefectível do dinheiro?

Se você pesquisar poderá averiguar que as ditaduras
latino-americanas começaram e se desenvolver a partir de conflitos de
terras, reformas agrárias, envolvendo latifundiários, multinacionais
frutíferas e pequenos produtores indígenas, e governos com ideias
comunistas… é possível ver em “Notícias da América” essa alegoria –
crítica – uma reflexão quanto ao negócio de arte, ao negócio de bananas,
ao agronegócio. E eu faço parte disso tudo…