Conheça o barco a vapor que navegou no Rio das Velhas em Santa Luzia (MG)

Saldanha Marinho, primeiro vapor a singrar os rios das Velhas e São Francisco, em 1871, com passageiros e mercadorias, é atração em praça, mas sofre a ação dos vândalos

De: Estado de Minas Cidades

Juazeiro (BA) – A 1,6 mil
quilômetros de Belo Horizonte, uma embarcação com 28 metros de
comprimento e que ajudou no desenvolvimento econômico e social de Minas
Gerais e de estados do Nordeste “descansa” em Juazeiro, numa praça às
margens do Rio São Francisco. Trata-se do Saldanha Marinho, o primeiro
vapor a navegar no Rio das Velhas e no Velho Chico. O nome de batismo,
estampado com letras grandes no casco escuro, é uma homenagem ao
político que governou a província mineira, de 1865 e 1867, e a paulista,
em 1867 e em 1868. Hoje, o barco é uma das principais atrações
turísticas daquele município do semiárido.

Mas sua importância
– tanto histórica quanto econômica – começou na Grande BH. O vapor,
também chamado de gaiola, apelido dado pelos ribeirinhos aos barcos
movidos por imensas rodas d’água, foi lançado no leito do Rio das
Velhas, maior afluente do São Francisco, em 1871, perto de Lagoa Santa e
Pedro Leopoldo. A embarcação fazia a rota Pirapora–Juazeiro, uma das
principais do país nas primeiras cinco décadas do século passado. De
apito rouco e estridente, o Saldanha Marinho navegava a 23 km/h rio
abaixo e 14 km/h leito acima.

Por viagem, levava cerca de duas
dezenas de pessoas e, no máximo, seis toneladas de mercadoria. Cada
viagem durava dias. E foi assim por quase 60 anos. É necessário frisar
que a hidrovia do Velho Chico era um importante corredor entre o Sudeste
e o Nordeste do Brasil. Primeiro, porque o São Francisco, conhecido
como o Rio da Integração Nacional, corta cinco estados: Minas, Bahia,
Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Segundo: o barco era o único meio de
transporte para muitos moradores das cidades cortadas pelo rio, uma vez
que, naquela época, a malha rodoviária do país era deficitária e a
aviação era considerada luxo.

Santa Luzia

A partir de 1880 a situação econômica luziense encontrou melhores perspectivas devido à construção de uma fábrica de tecidos, próxima a cidade. O potencial algodoeiro da região, o crescimento demográfico local e, consequentemente, a ampliação do mercado consumidor, foram fatores favoráveis ã instalação da “fábrica de Tecidos São Vicente” em Santa Luzia.

A situação internacional também contribui para o aparecimento de indústrias têxteis no Brasil, já que, em 1860, sua produção de algodão foi ampliada para exportar apara a Inglaterra, em substituição ao algodão norte-americano, cujas exportações foram interrompidas com a Guerra de Secessão. Com o fim da Guerra Civil, entretanto, as exportações norte-americanas retomaram seu lugar, acarretando uma queda da produção e exportação nacionais. Mas, ao que tudo indica, a abundância da matéria-prima a preços baixos, na década de 70, criou uma condição favorável para as manufaturas têxteis no Brasil.

Entretanto, a fábrica São Vicente não obteve o sucesso esperado nos seus primeiros anos de funcionamento. Problemas ligados à força motriz prejudicavam sua produção, provocando séria crise financeira. Em 1891, a fábrica foi vendida à Companhia Cedro e Cachoeira, de propriedade dos irmãos Mascarenhas, donos de uma série de indústrias têxteis na área do Rio das Velhas. Também os Mascarenhas lutaram para solucionar o problema da força motriz, só resolvido alguns anos depois. Então, sua produção foi ampliada, chegando a trabalhar com 100 teares e 150 operários. Nesse momento, porém, surgiu o problema da aquisição da matéria-prima com o término do “boom” algodoeiro na região, passando a fabrica a adquiri-la no Nordeste.

O algodão do Nordeste era transportado pelo vapor “Saldanha Marinho”, fretado pela Companhia para levar tecidos e trazer algodão, ampliando, com isto, o seu mercado consumidor, viajando até Juazeiro. A navegação era feita não só no rio São Francisco como também no Rio das Velhas, chegando até Santa Luzia conforme o nível das águas. Nos períodos de seca, o Rio das Velhas não se prestava à navegação e o transporte era feito por tropas. Esse tipo de transporte, entretanto, foi abandonado em pouco tempo, pois em 1893 os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil chegaram a Santa Luzia, e, logo depois, a Pirapora, passando a fabrica a receber e expedir mercadorias por ela, abandonando totalmente a precária navegação do Rio das Velhas.

Vapores

O
Saldanha Marinho, assim como as dezenas de vapores que percorriam as
águas calmas do São Francisco, ainda é alvo de uma dúvida. Embora os
historiadores sejam unânimes em dizer que ele debutou no Velhas em 1871,
sua origem é motivo de discórdia entre especialistas. Uma corrente
acredita que o vapor foi construído, a pedido de Saldanha Marinho, por
Henrique Dumont, pai de Santos Dumont (1876–1932).

Em sua obra O
caminho dos currais do Rio das Velhas – A estrada real do sertão, o
médico e pesquisador Eugênio Marcos Andrade Goulart escreveu, na página
144, que “o primeiro barco a vapor a sulcar o Rio das Velhas e o São
Francisco foi o Saldanha Marinho. Foi construído num estaleiro próximo a
Sabará por Henrique Dumont, pai do aviador Santos Dumont”.

Por
sua vez, outro grupo defende a tese de que o vapor foi construído nos
Estados Unidos, onde navegou no Rio Mississipi. No fim do século
retrasado, segundo os que acreditam nessa versão, o gaiola teria sido
desmontado e enviado para o Brasil. Primeiro, para ser usado no Rio
Amazonas. Depois, no Velhas. Para isso, teria sido desmontado novamente e
enviado para o povoado de Quinta do Sumidouro, próximo a Lagoa Santa,
onde foi montado e colocado no rio.

Essa última versão é bem
parecida com a história do Benjamim Guimarães, o único vapor em
atividade no planeta. Construído para navegar no Mississipi, em 1913, o
Benjamim veio para o Brasil, na primeira metade do século passado, e
também navegou no Amazonas. Anos depois, foi desmontado e encaminhado
para o São Francisco, explorando a rota Pirapora–Juazeiro. Hoje, o
gaiola leva apenas turistas, de Pirapora a Barra do Guaicuí, distrito de
Várzea da Palma, no Norte de Minas, num trecho de aproximadamente 20
quilômetros.

As ruínas de uma história inacabada

Barra
do Guaicuí é o vilarejo que testemunha o Rio das Velhas desaguar no São
Francisco. Assim que chegou ao encontro dos dois leitos, o Saldanha
Marinho encalhou no local, cujo cartão-postal é a igreja inacabada de
Bom Jesus de Matozinhos, que começou a ser construída pelos escravos por
volta de 1650.  Em suas ruínas, nasceu uma gameleira, que hoje dá
charme à igreja de pedras. O local, embora turístico, está pichado. O
mesmo ocorre com o Saldanha Marinho.

Vândalos escreveram frases e
nomes na parte interna do vapor. Restos de marmitas de alumínio também
são encontrados na escada que dá acesso ao segundo pavimento, onde ficam
as cabines, que eram usadas por marujos e passageiros. “As pessoas
precisam respeitar mais a história do barco”, defende João Pereira de
Araújo, de 60 anos. Nascido no sertão do Piauí, ele se mudou, ainda
jovem, para Juazeiro. Diariamente, leva seu cavalo, batizado de Pangaré,
para pastar às margens do São Francisco.

Enquanto espera o
animal se alimentar, ele aprecia o leito e, claro, o Saldanha Marinho. A
Prefeitura de Juazeiro tem planos de reformar o barco. A ideia é
recuperar o apito do gaiola e a roda d’água, que não funcionam desde
1971, quando a embarcação começou seu descanso em terra firme.

LINHA DO TEMPO
1871: Saldanha Marinho inaugura a navegação por vapores no Rio das Velhas
1877: Embarcação é fretada pela Companhia Cedro Cachoeira para transportar tecidos da empresa
1943: O barco, com problemas na estrutura, interrompe suas viagens pelo Velho Chico
1971: Já aposentado, o gaiola é transferido para a praça em Juazeiro, às margens do São Francisco
Década de 1990: O gaiola é reformado
Década de 2000: O barco funciona como restaurante e pizzaria