O sofrimento da Segunda Divisão do Mineiro

Competição promovida pela Federação Mineira de Futebol só sobrevive graças a alguns poucos abnegados. Jogadores veem competição como oportunidade para subir na vida

De: Superesportes Esportes

Santa Luzia – Figura conhecida no Bairro Frimisa, onde
vende salgados há quase 30 anos, Magno Santiago dos Santos, de 66, não
perde uma única partida no estádio do bairro. Diante do baixo público –
17 pagantes – do confronto entre Contagem x Minas Futebol, no domingo, o
aposentado desabafa. “Quase ninguém veio ao campo. Está faltando
interesse da torcida”, acusa, relembrando a época em que o local recebia
centenas de visitantes. Entre o sonho de jovens atletas em vencer no
futebol e a preocupação de um dirigente em não perder a bola de vista
temendo o custo de repô-la, a percepção do aposentado ilustra bem a
realidade do Campeonato Mineiro da Segunda Divisão, equivalente à
Terceira Divisão.

Marcado pela baixa aceitação do público mesmo
nos estádios do interior, onde se concentra a maioria dos clubes (15 ao
todo), o campeonato virou assunto nas rodas de conversa depois que o
lateral-esquerdo Raner Mariano de Almeida, do Guaxupé, morreu
subitamente de ataque cardíaco enquanto o ônibus da equipe seguia para
Três Corações. No início da semana, o julgamento de três clubes que
escalaram jogadores de forma irregular rendeu nova polêmica. Resultado: a
Federação Mineira de Futebol (FMF) decidiu adiar o início da segunda
fase para o dia 29.

Os problemas parecem não afetar os fãs mais
abnegados. Proprietário de uma empresa na Ceasa, o empresário Valclécio
Soares, 42 anos, diz acompanhar os jogos como forma de incentivo a
jogadores carentes de Contagem, onde mantém um campo. Entre eles está o
lateral-esquerdo Rafael, do Minas. “Muitos jogadores procuram uma
oportunidade melhor. Aqui, eles conseguem fugir da droga. Ganham um
salário mínimo, às vezes nem isso, mas a esperança vale mais do que
dinheiro”, comenta. Soares enxerga a divisão como uma porta de entrada
para grandes clubes. “É a chance de ouro. Muitos não têm a chance de
chegar à elite do futebol, mas quem chega lá se destaca”, acrescenta,
dando como exemplo o armador Bernard do Atlético, que foi emprestado ao
Democrata-SL.

A visão é a mesma de Jorge Veloso dos Santos, 51.
Vizinho do estádio (mora a um quarteirão de distância), o industrial
discorda do nível de exigências da Federação Mineira de Futebol (FMF)
nos jogos, Ele diz que o maior entrave é o custo da arbitragem. “Qual
time consegue pagar R$ 3 mil, R$ 4 mil a um atleta, se eles nem têm
incentivo? Isso aqui não é um mero jogo. É uma escola. É preciso reduzir
os custos de arbitragem para melhorar o campeonato”, adverte.

Para
atuar no campeonato, cada clube precisa desembolsar de R$ 1.303 a R$
4.205 pelo trio de apitadores. O valor é apontado pelo presidente em
exercício do Contagem, José Eustáquio de Souza, de 48, como um dos
maiores custos do clube. Incentivado pela assinatura de um convênio com a
prefeitura, o dirigente tem assegurados despesas de alimentação,
alojamento e viagens. Por outro lado, não consegue um campo próprio, nem
patrocinadores. “Para nos classificarmos, precisamos de patrocinadores.
Empresário quer retorno, visibilidade, e isso a Segunda Divisão não
tem”, lamenta.

Improviso A falta de jogadores no grupo principal
levou o Contagem a contar com 11 atletas da base no jogo – um desistiu
de última hora por estar passando mal. Desfalque que acabou se
refletindo no placar. O Minas Futebol goleou o rival por 3 a 0 no
segundo tempo. As limitações são um desafio para o goleiro do Contagem,
Mateus Leonardo de Oliveira, de 19 anos. Jogador desde os 14 anos, ele
enxerga o futebol como uma oportunidade de realização. “São poucos os
que se empenham em chegar ao topo. Muitos enxergam a Segunda Divisão
como um nível baixo. Mas encaro isso como um desafio. O nível dos times
de Minas Gerais é bom. Todos vieram para vencer”, confia Oliveira.

Outro
exemplo de vida vem de Rafael, do Minas. Sem condições de alugar uma
casa em Sete Lagoas, o jogador passa a semana no alojamento do clube.
Durante os domingos e feriados, vai a Contagem visitar a esposa e o
filho de 1 ano, que moram num barracão. “Já sofri muito, levei muitos
nãos. Só Deus sabe a minha luta. Hoje estou feliz em fazer o que gosto
na Segunda Divisão. É um bom campeonato, mas que precisa de um olhar
mais atento.”

Questionada sobre a falta de apoio, a FMF alega que
ajuda como pode. De acordo com o secretário geral e ouvidor da
federação, Rodrigo Pires Diniz, todos os custos da Segunda Divisão são
previamente discutidos com os clubes. Do valor total arrecadado nos
jogos, 6% são repassados à entidade. “Democrática como é, a Segunda
Divisão tem de ter clubes capazes de disputarem todos os jogos. Já
tivemos abandonos porque as obrigações têm sido mais duras. Falta
interesse de algumas agremiações em se estruturar melhor”, defende
Diniz. Uma das ajudas dadas pela federação são as bolas, fornecidas
gratuitamente. Pouco para um campeonato que vai muito além de uma
simples disputa.

OS NOVATOS

CONTAGEM ESPORTE CLUBE
Fundação: 01/01/2006
Presidente: José Eustáquio de Souza
Sede: Rua Expedicionários, 235, Novo Progresso, Contagem
Estádio: Frimisa
Site: contagemesporteclube.blogspot.com.br
Dirigido
por um pastor evangélico, o clube é composto somente por jogadores com
até 20 anos de idade. Funciona na prática como uma escolinha social,
afastando os atletas das drogas, problema comum na periferia de
Contagem. Para isso, conta com o apoio de um convênio assinado com a
prefeitura, que investe nas categorias de base. São 24 atletas no time
juvenil (que atuou na primeira fase do Mineiro), 20 no infantil e 17 nos
juniores.

MINAS FUTEBOL BRASIL LTDA
Fundação: 12/10/2011
Presidente: Geraldo Magela dos Santos
Sede: Rua Virgínia de Oliveira Maciel, 543, Sete Lagoas
Estádio: Arena do Jacaré
Site: não tem
O
clube-empresa é um dos mais jovens do estado. A ideia de criá-lo surgiu
do interesse dos ex-diretores do Democrata de Sete Lagoas Humberto Tino
e Geraldo Magela dos Santos em continuar o trabalho de desenvolvimento
de jogadores que vinham fazendo no Jacaré. Ambos injetaram recursos no
projeto, que agora começa a render frutos: o time está classificado
para a segunda fase da competição. A maior parte do grupo de jogadores é
natural de Sete Lagoas.